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Tínhamos essa particularidade, eu e o meu pai: eu achava que jamais seria suficientemente prosaico para conseguir comunicar com ele e ele sabia que poucas vezes seria mesmo necessário que comunicássemos um com o outro
 
 
Quanto ao meu pai, Francisco Machado dos Santos, direi que nunca quis a cadeira do poder - preferiu sempre a cadeira para inválidos do percurso número seis da Empresa de Viação Terceirense, um banco alto e confortável de onde, em boas condições de ambas as pernas, lançava um trejeito de boina às damas sentadas e estendia um passou-bem caloroso aos cavalheiros em pé junto à coxia. De forma que, quando pela segunda vez ele nos encarou, a mim e às minhas irmãs, e anunciou: "Domingo estou outra vez na mesa das eleições", percebemos os três que alguma razão clandestina haveria para que um homem alegre e conversador aceitasse sentar-se duas vezes consecutivas no ambiente lúgubre de uma secção de voto, conferindo em silêncio os cartões de eleitor e calando os cumprimentos aos votantes que chegavam.
A razão, viemos a encontrá-la na noite desse mesmo domingo, escondida no bolso do casaco do velho e escrita em letra de mulher no rodapé de um boletim com os nomes dos partidos: "És um raio de sol nesta manhã de bruma". Podia ter sido uma vez sem exemplo, mas não foi. Nas Autárquicas e nas Presidenciais, nas eleições para a Assembleia da República ou o Parlamento Regional - durante uma década os boletins de voto nulo continuaram a chegar todas as noites eleitorais, cheios de "sol e de "nevoeiro", de "bruma" e de "oceano", e se nunca confrontámos o velho foi porque o respeito pela memória da nossa mãe nunca foi tão grande como a curiosidade sobre quem seria a namorada e até onde chegaria aquele galanteio improvável.
Até que as minhas irmãs se casaram, eu mudei-me para a cidade e, num dia brumoso de Setembro, o meu pai bateu-me à porta disposto a pedir-me a bênção para, enfim, passados dez anos, juntar a solidão à da velha apaixonada que tão zelosamente prometia cuidar-lhe da velhice. Veio muito trémulo, de boina debaixo do braço, e quando finalmente me pôs a mão no ombro e desconversou: "Sim senhor, casaco de cabedal verdadeiro...", eu olhei-o bem de frente e disse-lhe apenas: "Nem penses numa coisa dessas!"
Tínhamos essa particularidade, eu e o meu pai: eu achava que jamais seria suficientemente prosaico para conseguir comunicar com ele e ele sabia que poucas vezes seria mesmo necessário que comunicássemos um com o outro, pelo que a maior parte da nossa relação, durante aqueles vinte anos em que havíamos coabitado e repartido o orçamento familiar, se fizera dos silêncios e rancores próprios de uma casa órfã de mãe. Então, ele cerrou os olhos, engoliu em seco e argumentou: "Ela é poetisa, Pedro, poetisa do tempo em que se musicavam poemas em vez de se apalavrarem melodias...", mas eu virei-lhe secamente as costas, ajeitei o globo terrestre em cima da cómoda e suspirei: "Pelo amor de Deus, pai, 'bruma' é a palavra açoriana para 'pimba'..."
Para mim, que nunca tive a bondade dos tímidos como o Montgomery Clift nem a grandeza dos fortes como Hemingway, a solidão podia ser uma vida como outra qualquer - e a liberdade, aliás, mais não era do que essa imensa sabedoria de se saber estar sozinho, como dizia Greene. Não queria que o meu pai se transformasse num velho igual ao Manuel Escanchado, o nosso vizinho dos Regatos que se masturbava à janela e "achava" coisas na nossa arrecadação, mas se o problema eram as urgências do ventre então eu próprio custearia os serviços de uma profissional, cada vez mais fáceis de encontrar ao redor da ilha. Houvesse alguém a sabê-lo, era eu: um homem podia perfeitamente amar e sentir ciúmes de uma mulher da vida, e na sua ausência era-lhe ainda possível sentir saudades dela e considerá-la sua para todo o sempre.
De modo que, naquele dia de Setembro, o velho voltou a pôr a boina, tomou a carreira número seis de regresso a casa e nunca mais se falou nisso. Não sei se a namorada voltou a escrever-lhe poemas em boletins de voto - sei que ele continuou a sentar-se na mesa das eleições durante muitos anos e que, durante outros tantos, jamais deixou escapar o menor indício de que aquela ou outra mulher, amadora ou profissional, houvesse entrado na sua vida para ficar.
Depois, bem, depois as minhas irmãs divorciaram-se, o velho teve um ameaço de trombose, a empresa de viação reduziu o número de autocarros para os Regatos e, bem pesadas todas as coisas, vi-me um dia a descer a Canada do Funchal e a ir bater à porta da poetisa do "sol" e do "nevoeiro". Avistei-a no quintal, curvada sobre um pé de couve, e ao vê-la erguer-se ainda viçosa, muito ágil na bata florida que lhe disfarçava a viuvez, pensei: "Será uma boa esposa apesar de tudo." Então entrei e sentei-me em frente à televisão, e quando ergui a chávena de chá para lhe perguntar: "Diga-me lá, a senhora tem votado?", ela franziu a testa, respirou fundo e sorriu-me - juro que por um momento me sorriu. Depois, porém, tirou-me o pires das mãos, indicou-me a porta da rua, muito sacudida, e disse-me apenas: "Deixei de acreditar em políticos!" - e quando olhei pela última vez para trás, em desespero, pude ver Manuel Escanchado assomando à entrada da cozinha, enquanto controlava os meus movimentos na direcção da porta da rua.
O meu pai, Francisco Machado dos Santos, morreu menos de um ano depois, em semana de eleições Europeias. Ia em pé, junto à coxia do autocarro, e às damas que o cumprimentavam não dispensava mais do que um ligeiro aceno de cabeça, por educação. O motorista completou o percurso e só então telefonou à família.

Joel Neto
Lisboa
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