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A criança chorava: "La, la, la", e a minha irmã traduzia-me: "Estás a ver, Miguel? Já diz 'Mamã'" A miúda insistia: "La, la, la", e a minha mãe atacava, orgulhosa: "Viste, Miguel? 'Vovó'!"
 
 
Para a Érica

Ao princípio pensei que fosse uma brincadeira, um jogo inocente sem origem nem destino. Eles tinham acabado de aterrar em Barajas, eu nunca havia visto a miúda e, na verdade, tudo aquilo que pudesse fazer-nos sorrir servia para absolver todo aquele afastamento e toda aquela solidão. A criança deu início a um cântico indecifrável: "La, la, la...", naquele seu jeito único de quem ri chorando, e então a minha irmã assinalou, com um sorriso: "Já viste? 'La-la' é passear. Está contente por termos vindo ver o tio..." Eu enterneci-me. Era óbvio que a rapariga não estava a falar de passeios coisa nenhuma, estava apenas a palrar naquele seu jeito de quem ri chorando e fala chorando e come chorando e está calada chorando, como pouco depois vim a perceber - mas o som daquele cântico indecifrável e persistente fazia descer sobre nós uma certa aura de harmonia e, a partir de certa altura, o ressentimento provocado pela minha súbita partida parecia de facto começar a desvanecer-se.
Depois, bem, depois os dias foram passando, a ordem da casa deteriorou-se, as prioridades foram-se atropelando e, ao fim de uma semana, o cântico da minha sobrinha já era menos uma fonte de comunhão do que uma tortura chinesa. No sábado sentámo-nos para decidir o que fazer às Vargens, que o velho nos deixara em herança, mas toda aquela irracionalidade deleitada perante a ladainha da criança levava-me à loucura. A rapariga chorava: "La, la, la", e a minha irmã traduzia-me: "Estás a ver, Miguel? Já diz 'Mamã'..." A miúda insistia: "La, la, la", e a minha mãe atacava, orgulhosa: "Viste, Miguel? 'Vovó'!" A pequena voltava: "La, la, la", e o meu cunhado despertava da sua letargia: "Olha, Miguel! Treze meses e já diz titio..." Estive para explodir: "Fiquem lá com a porcaria das terras, que não penso voltar ao monte nem sequer de férias!", mas em vez disso levantei-me, olhei pela janela e disse apenas: "Vamos ao Corte Inglés?"
Acho que, no fundo, quis dar-nos a todos uma segunda oportunidade. Eu e a Rocio havíamos decidido não ter crianças, e o facto é que toda aquela minha acidez podia não ser mais do que ciúme, um ciúme puro e animal de todas as atenções dispensadas à criança. Na verdade ainda ensaiei duas ou três graçolas a propósito da palração da miúda. Quando entrámos no shopping traduzi com sarcasmo o seu mais recente lamento como os três últimos versos do segundo canto dos Lusíadas. À mesa do restaurante sugeri em tom de escárnio que a moça estava a dissertar sobre as tensões étnicas no Extremo-Oriente, pois acabara de dizer "Megawati Sukarnoputri" - eu tinha ouvido bem: "La, la, la!" Quando me dei conta do meu próprio ridículo, no entanto, baixei as armas e entrei simplesmente no jogo. Era claro que a rapariga não era um novo Einstein, mas o facto era que nenhum de nós triunfara verdadeiramente na vida e, portanto, também não se podia esperar muito da descendência. Bem vistas as coisas, não foi uma tarde desagradável: consegui convencê-los de que a secção de roupa infantil haveria de estar repleta de gente e passámos o resto do dia para trás e para a frente no piso da informática, à procura de uma placa de som para o meu portátil.
Não sei o que me reanimou o desdém pela criança, se um novo acesso de ciúme se o simples cansaço de ter a casa cheia - sei que quando os ouvi discutir as dificuldades de levar a rapariga de volta ao centro comercial, para uma tarde inteira à procura de cueiros e biberões, senti brilharem-me os olhos e ofereci-me de imediato para baby-sitter. Disse: "Deixem estar que eu fico em casa com ela", e quando eles chegaram ao shopping já nós estávamos numa clínica na Calle Ayala, a miúda de balão do Bugs Bunny atado ao dedo, com os seus olhos minúsculos girando em volta, eu à espera de que o neurologista de serviço me explicasse por que raio a cachopa, tendo mais de um ano, não dizia ainda uma palavra que fosse, nem papá nem mamã nem outra coisa nenhuma. O médico fez-lhe uma série de testes, bateu-lhe com martelos nos joelhos para lhe conferir os reflexos, vendou-lhe os olhos pequenos para aquilatar-lhe a orientação e depois virou-se para mim, no seu castelhano tosco de galego imigrado: "Não há nada de errado com a criança. Um pequeno atraso na fala, nada mais... Por outro lado, revela capacidades motoras acima da média." A seguir explicou-me tudo sobre as oito inteligências, a teórica e a prática e a musical e as outras todas, e rematou: "Cada um é para o que nasce. O Julio Iglesias também não é muito esperto, e no entanto..."
Quando eles voltaram, ao princípio da noite, a miúda estava a um canto da sala, encaixada na aranha, e eu na outra ponta de relógio numa mão e braço erguido ao alto, como um juiz de pista no momento da partida. Foi uma fraqueza: a minha irmã zangou-se comigo, a minha mãe disfarçou um olhar preocupado, e quando a criança se sentiu pegada ao colo e me olhou com o seu olhar pequenino eu não fui capaz de dizer senão: "Vocês não percebem... Ela pode vir a ser uma grande atleta..." Eu e a Rocio voltámos a discutir fazer um filho, mas nunca seria fácil: empedernimos o coração e os ovários, e quando enfim vencêssemos todos os dissuasores de concepção de que nos atafulhámos ao longo dos últimos cinco anos já a lua iria alta e a idade avançada. Tenho ali o balão com o Bugs Bunny, porém, e não se passa um só dia em que não pense nas Vargens e não me consolem as saudades de ter cá a minha família.

Joel Neto
Lisboa
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