A parte interna da coxa dela |
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Daisy rodou sobre si própria, apoiou a face direita nas duas mãos postas e sussurrou, com o seu sotaque doce de Pernambuco: "Posso te contar um segredo?" Só então me casei
Era uma mulher bonita, porém: tinha vinte e seis anos e um longo cabelo amarelo-torrado, e da saia preta com lantejoulas espreitou-lhe a parte interna da coxa no momento em que o disc-jockey meteu um blues do Missouri e ela se pôs no meio da pista a dançar como a Jessica Lange. Via-a simular pudor quando lhe estiquei os trinta contos, saboreei o gosto suave do seu lóbulo polvilhado a pó de talco, ouvi-a repetir enquanto subia e descia sobre o meu ventre: "Jesus, assim eu vou-me apaixonar! Jesus, assim eu vou-me apaixonar!", mas era ainda a forma redonda e excessiva da parte interna da sua coxa que eu sentia entre as mãos quando, finalmente, acendemos os cigarros e ficámos ali à espera de que os vapores pousassem e os meus trinta minutos se concluíssem. Então, ela rodou sobre si própria no colchão, apoiou a face direita nas duas mãos postas e sussurrou: "Posso te contar um segredo?", e eu fiquei ali a ouvir como um patrão atrevido lhe fizera uma filha e como a mãe a escorraçara de casa e como a criança tivera de ficar à guarda de uma tia de Maceió e como, sem alternativa, ela aceitara a proposta de um empresário português para vir para a Europa - disse-o mesmo assim: "Para a Europa" - fazer uma audição para bailarina. Só então me casei. Não foi uma cerimónia épica, muito menos uma reunião de família - juntei dois ou três camaradas da noite e levei-a ao Registo Civil, e quando chegámos à minha casa de Benfica e ela se pôs a admirar o comando electrónico do portão da garagem eu pensei: "Apesar de tudo, vou ser feliz." Depois, enfim, veio a Leila do Brasil, comprámos um apartamento maior em Massamá, eu mudei para os escritórios de Alverca, a Daisy teve uma depressãozita e a comunhão dos primeiros meses foi-se desvanecendo. A vida dela não era má: de manhã levava a criança ao colégio francês, durante o dia dormitava ou trabalhava em part-time numa imobiliária, e quando eu voltava a casa tinha sempre pronto o jantar pontualmente às nove e meia. Não sei se a desequilibrou a maternidade, se a minha simples ausência ou as saudades da vida, sei que numa sexta-feira de Junho cheguei a casa e encontrei pela primeira vez a miúda sozinha, sentada em frente ao MCM, a treinar o francês com a Vanessa Paradis. Disse-me assim: "Mamãe saiu", e depois virou novamente a cara para o televisor, para atacar o refrão final do "Joe Le Taxi". Pela primeira de muitas noites, fui ao fogão, despejei o picadinho morno num prato de plástico e enfiei-me na cama a rever umas tabelas no portátil, mordiscando a couve frita até me vir o sono. Só me deixei abater uma vez. Tinha a Leila a cantar o "Taxi" aos berros ("Connait toutes les rues par coeur/Tous les p'tits bars/Tous les coins noirs") e a minha mãe chorando ao telefone por causa de uma zanga conjugal, e quando levantei os olhos do chão tentei lembrar-me da textura da parte interna da coxa de Daisy e à mente não me vinha outra coisa senão o pó de talco do seu pescoço, o seu hálito perfumado, o sotaque pernambucano em que carregava nos gritos de "Jesus, assim eu vou-me apaixonar!" Nem liguei aos camaradas: assumi sozinho o destino, apontei o carro à Baixa e, quando cheguei à Duque de Loulé, entrei no primeiro bar onde o porteiro me acenou com uma pequena vénia e libertou ligeiramente a porta, no seu convite silencioso ao "senhor engenheiro". A primeira mulher aproximou-se menos de dez minutos depois, debicando-me um caju do pires e pedindo licença para sentar-se. Eu não queria dormir com ela - queria olhar para aquelas mulheres e recuperar de entre elas o que me restava de Daisy, olhar para elas com desprezo e rejeitar os seus convites e beber a minha cerveja e voltar para a minha cama enquanto Leila cantava na sua voz de anjo as desventuras de Joe, o taxista que reencontrava a Amazónia nos becos escuros de Paris. Perguntei: "Está aí a Verónica, aquela gaúcha?", e ela respondeu-me, num tom carioca: "Casou com um cliente." "A Juliana, do candomblé?", insisti, e ela, franzindo a testa: "Não trabalha cá mais. Está vivendo com um cliente..." Então levantei os olhos para aquela mulher, dividi por momentos o olhar entre as suas coxas excessivas e o seu ar de paixão, e empinei o resto da minha cerveja: "Sinto por si. Eu já sou casado..." Dizem-me que Daisy - chama-se Lucineide, mas insistiu até ao fim em que a tratasse pelo nome artístico ("O nome do nosso amor", como dizia) - está a viver em Torres Vedras, com um advogado com quem costumava encontrar-se à noite durante o nosso casamento e que só lhe exige o picadinho pronto a horas e a oportunidade de ficar em casa a ver a Leila falar francês, enquanto a mãe sai para trabalhar. Às vezes a minha mãe passa por Benfica e eu juro-lhe que está tudo bem, que não me ficaram sequelas daquela união impensada nem vou agora levar a jantar as filhas das amigas dela só porque, entretanto, voltei a viver sozinho. Quando chove meto o carro na garagem, mas na maior parte dos dias prefiro deixá-lo sobre o passeio, aproveitando o espaço que a lei me concede enquanto legítimo proprietário de uma garagem em Benfica. Ainda me custa ter de abrir o portão sem aquele controlo remoto que a Daisy me levou. Joel Neto Lisboa Este endere鏾 de e-mail est protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript ter de estar activado para que possa visualizar o endere鏾 de e-mail |
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