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Os palhaços

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Dos seus narizes e dos seus traseiros dependiam quase todas as gargalhadas do dia, e se outras não existissem essa já seria uma razão para viver

 


Para a Maria

O Henrique não era atrasado: era só mais lento do que as outras crianças, mais pausado de gestos e mais disperso de olhar e menos atento à relação causa/efeito das coisas todas. Quando o vi pela primeira vez, muito pequeno e cabeçudo dentro da incubadora, olhei para a minha cunhada e torci o nariz: "Não vinga". Vingou. Depois, no dia em que voltei a dar-me conta da sua existência, haviam passado nove anos e ele era já um rapazote com óculos espessos e dando-me pelo ombro, de músculos bem torneados e força bruta - embora ignorante em matérias de letras e matemáticas. Eu estava sentado no sofá, a ler os classificados, e quando a vizinha de cima me bateu à porta para protestar: "O seu filho partiu dois dentes ao meu Nuno Miguel", olhei para o fundo da sala, para aquele monte de óculos e de músculos que se ria como um menino em frente aos palhaços da televisão, e pensei: "Boa, rapaz!" Então ele levantou os olhos, sorriu-me um convite deleitado e apontou para o televisor, desfazendo-se numa gargalhada: "Olha, o Serrote deu um peido!"
O Serrote era o Augusto de uma dupla de palhaços muito popular na época, uns velhos trapezistas que haviam passado a vida aos caídos e, a dada altura, a televisão transformara num sucesso. Tinham ganho os nomes em honra dos instrumentos que tocavam e mantinham uma actividade quase omnipresente: gravavam de manhã um espectáculo ao vivo, davam a cara durante todo o dia por campanhas da Coca-cola, emitiam o programa gravado imediatamente antes das telenovelas e ainda vendiam nos supermercados milhares de contos em filmes de vídeo e jogos pseudo-educativos. Na verdade Trompete, o palhaço rico e azedo, limitava-se a fazer escada para o colega, como dizem os brasileiros: no programa ou num anúncio, punha-se a tocar marchas populares, muito cerimonioso, e quando dava por si já tinha levado uma lambada do companheiro - ou um peido ou um pontapé ou outro qualquer recurso espertalhaço que os fortes usam para vincar o seu poder sobre os mais fracos. Lá no fundo, porém, as crianças pareciam ter-lhe um certo carinho: do seu nariz e do seu traseiro dependiam quase todas as gargalhadas do dia, e se outras não existissem essa já seria uma razão para viver.
Quando o programa de televisão começava, às cinco em ponto, já Henrique tinha voltado da rua, o corpo suado das correrias e o mesmo sorriso deleitado de menino sentado no sofá. Desde a visita da vizinha de cima, porém, os protestos pelo seu comportamento na rua nunca mais pararam: em poucas semanas, Henrique partiu os dentes a mais dois ou três miúdos, desfez um gato a pontapé, atirou uma pedra ao vidro da padaria e chegou a desaparecer uma manhã inteira com a bicicleta de uma loirinha do prédio em frente. A cada queixa, eu voltava-me para o sofá, como se o questionasse sobre as proporções que estava a tomar aquele mau hábito, mas por resposta recebia o mesmo sorriso cândido e feliz de sempre, aqui e ali acompanhado do pedido: "Pai, vamos ver o Serrote à televisão..." - e quando ouvia as suas palavras, precedidas daquele "Pai" que me era tão estranho e incómodo, lamentava mais uma vez o milagre da procriação.
Parecia viver entre dois mundos, o Henrique, não só entre o mundo da rua e o mundo dos palhaços, mas entre dois mundos diferentes no seio da própria rua: era o pateta de Campo de Ourique, um ser grotesco e desenquadrado que tinha tudo para juntar-se aos outros falhados do bairro, mas por outro lado um rapaz enorme e colossal, a arma perfeita para os durões que dominavam a praça, um guarda-costas permanente que não fazia perguntas e intervinha à primeira ordem. Bem vistas as coisas, não era popular entre nenhuns deles: os rufias viam-no como apenas mais um imbecil, e ao trabalho que ele lhes fazia não retribuíam mais do que a leve tolerância da sua presença; os meninos da mamã, os intelectuais e os efeminados odiavam-no ainda mais do que àqueles que os subjugavam, vendo nele uma espécie de rival supremo, um oportunista, um moço mais anormal ainda do que eles, a quem a Providência ardilosa dotara do que de mais estúpido e injusto havia no Mundo: a força bruta. Estou convencido de que, se as coisas não houvessem tomado o rumo que tomaram, o maior perigo vinha destes últimos: não tinham nada a perder - e não há ninguém mais perigoso do que quem não têm nada a perder, como diz o cliché.
De modo que, baralhado com aquela duplicidade da criança e receoso de vir a confrontar-me com trapalhadas maiores do que dentes partidos e bicicletas extorquidas, decidi investir na relação pai-filho: pus-me à frente do televisor, brincando com a sua atrapalhação perante a impossibilidade de ver os palhaços, e propus: "Vamos ver o Serrote amanhã? Fiz duas reservas..." Para mim, claro, foi uma seca: passámos seis horas fechados num estúdio sem ventilação, cheios de fome e de calor, e batemos dúzias de vezes palmas à mesma piada, repetida até ao vómito para apurar os takes. Para os miúdos, contudo, não havia problema nenhum: de cada vez que o Serrote saía do camarim era o Serrote que lhes aparecia à frente, e quando ele pegava no instrumento e começava a serrar uma cadeira as crianças irrompiam em aplausos frenéticos, tão mais frenéticos quanto fossem repetidos e repetidos e repetidos - até à exaustão. Henrique estava radiante: ria como os outros e batia palmas como os outros e andava a saltar no meio dos balões como os outros, e não só não agredia ninguém como ninguém lhe pedia que o fizesse. Ao intervalo pôs a sua mão colossal sobre a minha perna, contente, e eu não resisti a afagar-lhe o cabelo. Curioso, aquele cabelo, aquela trunfa seca e farta que eu descobria agora, ao fim de quase dez anos...
Foi a meio das gravações que o Trompete se passou. Ninguém estava à espera: os elementos da produção dispararam de trás dos biombos, o realizador saltou da régie, o segurança foi chamado da portaria, as crianças abriram as bocas numa surpresa. Quando acabou uma marcha e o Augusto lhe peidou para o rosto, como parecia estar previamente combinado, o palhaço rico cerrou os olhos, respirou fundo - respirou fundo durante vários segundos, parecendo contá-los - e de repente espetou um gancho de direita no companheiro. Foi um movimento brusco: enfiou-lhe um murro entre a boca e o nariz, sacudiu a mão para repelir a dor e gritou: "Vai cagar para a puta que te pariu, ó Mendes!" Então, a confusão instalou-se, a produtora veio prometer às crianças que voltariam no dia seguinte e fomos todos para casa com uma certa estranheza no corpo. Serrote ficou ali a sangrar, com a mão no rosto e um certo olhar de mágoa.
Naquela tarde a emissão teve menos de meia hora - depois entrou uma publicidade e a novela das seis passou excepcionalmente dois episódios. Serrote ainda tem o seu programa, mas Trompete passou para um canal concorrente, onde apresenta um talk-show. De vez em quando Henrique dá uma volta, mas agora passa menos tempo na rua: recebe o Nuno Miguel para jogar playstation e depois fica horas à janela, contemplando a loirinha da frente a pentear as bonecas junto ao espelho. Aos sábados vamos os dois ao parque, e enquanto eu leio os classificados ele ergue as mãos abertas ao nível da boca, os polegares apontados aos lábios, e murmura repetidamente os três primeiros compassos de uma marcha sanjoanina.

Joel Neto
Lisboa
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