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A ela, como a ti, como a mim, não nos falta nem o fundo bom nem o fundo mau, falta-nos o fundo de todo: atira-se-nos uma moeda para dentro e fica-se eternamente à espera de ouvir o "plim"


Para Maria do Carmo

Elas agora já não param, Mariana, e se for desta quero que saibas que vou levar a saia e o xaile vermelho que usei na dança da Boa Hora. Veste-mos de véspera: o xaile vermelho e a saia travada - tenho os sapatos da missa, a blusa da América e as meias de vidro, mas por mim tanto podes vestir-mos todos juntos como não vestir-me mais nada, importa-me lá saber. Veste-me o xaile e a saia, e se alguém abrir a boca diz que eu não tinha mais nada lavado e que uma mulher de respeito não se entrega de roupa suja aos fungos da bagacina. Diz-lhes qualquer coisa, mas veste-me o xaile e a saia travada - e que no último instante me vejam gorda e alegre, cantando na dança da Boa Hora e sorrindo aos homens que aplaudem o ar alegre de uma gorda vestida de xaile vermelho.
O resto é contigo - elas agora já não param, Mariana, e nem tu podes detê-las nem há nada que eu possa ensinar-te para quando as tuas começarem. Diz à Lúcia do Noronha que o vestido para sábado está pronto e que ela me fica a dever um metro de entretela - há-de vir ver a defunta, com o seu nariz torcido e a sua boca de trombose, e que ao menos a alguém de fora pese o dia do meu enterro. A história do Alvarino, guarda-a para ti - diz que a mulher anda mesmo metida com o Murça da urbana, mas uma mão lava a outra e não se fala mais nisso. Dá as panas de barro à Conceição, pede menos dois papo-secos na venda e deixa quinze ovos no alqueire - não estamos em tempo de Páscoa nem de galinhas cantadoiras, mas deixa quinze ovos na palha de trigo, reza três vezes ao Senhor Salvador e espera vinte e um dias bem certos, a ver se não estão galados... Faças o que fizeres, não tires os ovos do alqueire.
Gostava de perguntar-te se queres algum recado para o teu pai, mas não só perdi a fé dos reencontros como me falta a própria vontade. Casou comigo por ser feia e segura, o teu pai - sabias? Às vezes lembro-o no largo da Boa Hora, a ver-me cantar na dança e a gritar por dentro para os homens que aplaudiam: "Não vêem que é feia, porra?! Não vêem que é feia?!", e depois a fazer aquele olhar tão mau e reprovador, tão duro e tão perene que ainda hoje abafa o amor que pudesse restar-me por ele. Se queres que te diga, vivi melhor viúva do que outra coisa qualquer - e se a ti te apetecer abrir agora a boca senta-te quietinha e espera que as tuas dores comecem. Não há sabedoria como a destas dores, Mariana.
Explica aos pequenos que eu não volto, e se o José Henrique perguntar de novo o que é um paneleiro, explica-lhe tudo direitinho, antes que ele o aprenda na venda. Pede-lhe desculpa por mim - ensinaram-me que há conversas impróprias entre avós e netos, e só agora, com estas dores, percebo a estupidez dessas coisas todas. Diz ao Ricardo que condutor de catterpillars não é profissão para ninguém - ele é esperto e pode candidatar-se a empregado do bar do Clube de Golfe, como o tio - e não te atrevas a baptizar a Catarina, que os tempos que aí vêm são tempos de ódio e baptizar um filho é como pôr-lhe um alvo na testa. Gostava de vê-la, à pequena, de pegar-lhe ao colo - mas haveria de sentir-me culpada se ela sair tão feia como eu, e se calhar mais vale morrer.
Vê se te entendes com a tua cunhada, filha - eu vou-me embora de vez e vocês hão-de precisar uma da outra. Não estejas à espera de que ela seja boazinha - a ela, como a ti, como a mim, não nos falta nem o fundo bom nem o fundo mau, falta-nos o fundo de todo: atira-se-nos uma moeda para dentro e fica-se eternamente à espera de ouvir o "plim". Mas faz-lhe uma visita. Vais lá no Natal, entras como coisa que nada fosse e perguntas: "O Menino mija?", e a partir daí nunca mais se há-de falar nisso, nem nas partilhas nem na educação dos rapazes nem nos jantar do próximo Natal nem no vinho de cheiro que o teu irmão bebe logo de manhã e, bem vistas as coisas, não precisava de beber.
E se for ela a abrir a boca quando me vir de xaile vermelho e saia travada, deitada sobre o caixão frio com a Lúcia do Noronha a torcer a boca ao lado, diz-lhe que eu não tinha outra coisa lavada e que uma mulher de respeito não se entrega de roupa suja aos fungos da bagacina - ou então diz-lhe que eu estava parva e insisti no xaile, tanto me faz. Na verdade ela sempre foi uma pessoa de fora, e na pior da hipóteses há-de ver-me gorda e alegre, cantando na dança da Boa Hora e sorrindo aos homens que aplaudem o ar alegre de uma gorda vestida de xaile vermelho.
Enfim, aconteça o que acontecer, não tires os ovos do alqueire - olha que ainda sou tua mãe...

Joel Neto
Lisboa
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