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Quando no ecrã apareceu a Marisa Cruz engalfinhada no Paulo Pires, assim como que a dizer que ser miss também era seduzir e ser seduzida, Catarina deixou escapar um risinho ansioso, um misto de angústia e vontade que me fez levantar as orelhas de lince e lembrar-me vagamente dos meus tempos de predador


Para Miguel Machado

Quando cheguei ao largo da igreja o vento soprava de nordeste, do lado da montanha, nenhum carro circulava pelas ruas e as janelas alumiavam-se de uma luz só, como se ao menos uma vez todos estivessem juntos à volta da mesma coisa. Um homem baixinho, de galochas pelo joelho, assomou à entrada da capela mortuária, entre o templo e o cemitério, bateu o pó do tapete contra a parede e fechou a porta com estrondo, fazendo ecoar o ferrolho pelos quatro cantos da vila. Eu estive para perguntar: "Desculpe, não vai haver um funeral agora às oito?", mas ele desapareceu célere pela porta principal da igreja, semicerrando-a com o mesmo estrondo da anterior, embora com maior solenidade. Estava atrasado para o espectáculo, pensei - não há homem que não goste de ver uma adolescente semi-nua, principalmente se se tratar da filha de um amigo de data longa ou, melhor ainda, de um inimigo de infância. Então o meu telemóvel voltou a tocar, e das suas entranhas brotou a mesma voz de mulher que eu escutara de manhã. "Lamento tê-lo informado mal, mas o enterro é só às nove", disse. "Em todo o caso, penso que devia esperar. A Catarina havia de querê-lo no funeral. Amava-o muito. Amava-o verdadeiramente", insistiu, e quando eu ia aclarar a voz embaraçada para perguntar: "Mas tem a certeza de que ainda há enterros hoje, com a capela fechada?" ela disse apenas: "Tenha paciência, espere só mais um pouco" e desligou sem aviso.
Nós estávamos na vila havia menos de uma semana, montando e desmontando cenários, filmando raparigas e as suas famílias, recolhendo depoimentos de antigos namorados e ensaiando desfiles em biquini e traje de noite, e a súbita notícia da morte de uma concorrente produzira em mim um estranho sentimento de desconforto, como se a nossa presença fosse mais uma imposição do que um prazer e tivesse precipitado, em última análise, a desgraça da jovem. Dantes, quando as televisões ainda eram uma modorra de ideias e ambições, limitávamo-nos a produzir programas infantis e documentários sobre a História de Portugal - mas depois apareceram as estações privadas (e com elas a concorrência, e com esta a necessidade de sobreviver) e tudo mudou. Em boa verdade, a ideia das misses foi minha. A eleição da mais bonita do País estava em baixa de audiências, e nós podíamos não só explorar o filão da beleza como descentralizá-la por todo o território nacional, definindo um longo conjunto de estágios que transformariam o concurso num programa em dezenas de episódios, com visitas às mais escondidas terras de Portugal - e ainda uma grande final, marcada para Lisboa. Pelo caminho dominávamos o horário nobre com a preparação das raparigas, a competição mesquinha entre elas, as reacções imprevisíveis dos familiares e as querelas ocasionais entre os namorados mais ciosos da suprema beleza da parceira - e enquanto os críticos nos fossem acusando de tudo, de exploração da inocência e de voyeurismo carnal e de deturpação do ideal televisivo, nós defendíamo-nos com o argumento de que estávamos a descobrir mulheres deslumbrantes e a revelar talentos escondidos (o que não era só um espectáculo televisivo, era um serviço à nação, um serviço público). Para a produtora que nos contratara, louca com os patrocínios e as receitas publicitárias, era o ovo de Colombo. Para nós, era verdade e pronto.
Catarina captara-me a atenção durante o briefing inicial do concurso, quando reunimos as candidatas da enésima vila visitada numa salinha da residencial para explicar-lhes as provas a que tinham de submeter-se e os compromissos a que ficavam obrigadas a partir do momento em que decidissem fazer parte da equipa do programa - dizíamos assim, "fazer parte da equipa", para depois lhes apresentarmos um contrato com as etapas da selecção, o exclusivo das entrevistas e as muitas exigências que teriam de acatar até, enfim, assegurarem um primeiro nível de cachet. Ela estava na última fila, a cochichar com a vizinha entre os seus cabelos negros e o seu olhar trémulo, e quando no vídeo de demonstração apareceu a Marisa Cruz engalfinhada no Paulo Pires, assim como que a dizer que ser miss também era seduzir e ser seduzida, amar e deixar-se amar em frente à televisão e aos portugueses, Catarina soltou um risinho ansioso, um misto de angústia e vontade que me fez levantar as orelhas de lince e lembrar-me vagamente dos meus tempos de predador. Depois, no entanto, o trabalho meteu-se no caminho, o lote de candidatas foi-se reduzindo, o espectáculo do sábado seguinte exigiu as mais variadas atenções, por causa de um ilusionista emigrado que não pôde comparecer e de um par de dançarinos locais que não acertava com o tango, e eu vi-me de repente demasiado cansado para tropelias amorosas, demasiado envolvido nos gráficos de audiências que o espanhol me ia descrevendo ao telefone e demasiado ansioso por acabar aquela eliminatória e passar à fase final do concurso.
Na verdade, pesados os meus muitos anos e os meus poucos casamentos, a equipa de produção deixara gerar em si própria a convicção de que eu era homossexual - eles diziam "gay", no cosmopolitismo bacoco de quem julga estar no centro do mundo. Não era. Todas aquelas mulheres me pareciam bonitas de mais, ingénuas de mais e bonitas de mais, e se eu me permitia a um ou outro excesso de intimidade com alguma delas, a um ou outro gesto de histeria perante toda aquela beleza e toda aquela ingenuidade, não era por ser gay, não era por fazer parte delas - era por não ter como levá-las a sério, por não ter como olhá-las de frente sem fazer de imediato uma palhaçada e desvalorizar-me a mim próprio e ao meu desejo. A Catarina, tocara-lhe apenas uma vez, ao fim de um daqueles dias de gravações em que as candidatas se passeavam pelo décor sem vontade de regressar a casa. Ela veio de olhar disperso, muito tímida e reverencial, e perguntou-me: "A seguir vão para Resende, não é? Onde é que fica Resende?", e então eu pousei as palmas das mãos sobre os seus ombros, toquei-lhe com indicador direito em cada um dos seios em biquini e expliquei: "Esta é Lamego e esta aqui é Resende... Percebeste?" A rapariga corou, a malta riu da minha intimidade e do meu histerismo homossexual, eu fechei o trabalho do dia e voltei a subir a serra à procura da casa ideal de férias. Sempre sonhara ter uma casa de fim-de-semana na província, um chalé de férias com pórtico e cadeira de balanço onde pudesse fumar um charuto e reflectir, feliz, sobre o facto de já me faltar menos um dia para morrer - e aquele périplo pelo País estava a permitir-me fazer precisamente o que eu mais precisava: a pesquisa perfeita. O resto da equipa passava os finais de tarde em longos passeios pelos campos, aproveitando o resto do Verão e registando com gozo quando um burro zurrava ou uma vaca se punha a olhá-los ao ruminar num pasto. À noite, enquanto assinavam cartões de visita e os distribuíam pelos empregados do restaurante - que depois os prendiam à parede com pionés, como um memorial da passagem dos deuses da televisão pela vila e pela casa - , e contavam-me longamente as suas deambulações em jeito de negaça, como se aos animais com mais de cinco quilos competisse estar no zoológico e tudo aquilo não passasse, no fundo, de uma grande aventura entre bichos em vias de extinção. Eu fazia um esforço por rir-me e, pela segunda vez no mesmo dia, via-me ansioso por acabar depressa aquela etapa e passar à fase final do concurso.
Naquele fim de tarde em frente à igreja, por isso, não era só a estranheza da morte de uma concorrente de vinte e um anos que me assaltava, era a súbita revelação de que ela me amava e a suspeita - a preocupante suspeita - de que esse irreflectido amor pudesse ter catalisado a sua desgraça. "Ataque cardíaco", dissera-me a voz de mulher ao telefone, e no momento em que o dissera eu revira de um só fôlego todas as vezes que me havia cruzado com a rapariga, o instante em que registara o seu risinho ansioso perante a simulação sexual do Paulo Pires, o dia em que lhe tocara nos seios e as muitas vezes que ela me olhara com pormenor e eu passara à frente para despachar as filmagens e partir em busca da minha casa de férias. Não sentia dor nem sentia culpa - sentia apenas que uma vida inteira se passara nas minhas costas e que, tendo em conta o actual estado das coisas, outras vidas continuariam a passar-se e a passar-se sem que eu desse por isso, vidas atrás de vidas, repetidamente, até não restar mais nada.
Depois bateram as nove horas, o homem baixinho desceu da torre do sino com umas calças limpas e uns sapatos de napa, eu respirei fundo e levantei-me do banco para ir-me embora. No último instante, porém, o quebra-vento da igreja abriu-se devagar e uma mulher saiu de lá de dentro cabisbaixa - uma jovem mulher de cabelo escuro e olhar tremente saiu devagar, limpando as lágrimas, e depois dela mais uma e outra rapariga, e depois outra, e outra ainda, perfilando-se todas junto à entrada do templo, enquanto Catarina descia os degraus da igreja no gesto desesperado de quem nada mais tinha por que esperar. Então ela levantou os olhos, olhou para mim sobre o banco do outro lado da rua e parou de repente. Não olhou para trás nem limpou as lágrimas nem sacudiu o seu longo cabelo negro, como costumava fazer nas provas de selecção e nas entrevistas - olhou para mim e correu para mim e bateu-me repetidamente no peito, em desespero, chorando ao alcance de toda a vila, enquanto eu tentava segurar-lhe as mãos e perceber como estava ela viva e como estava ela ali chorando nos meus braços. "Porque fizeste uma coisa destas?!", gritava. "Como pudeste inventar que tinhas morrido e fazer-me passar por uma coisa destas?! Como pudeste mandar-me convidar para o teu funeral e desaparecer assim de repente, como se tivesses de facto morrido?..."
Para tristeza de muitos, a vila não chegou a apurar uma finalista: no espectáculo dessa noite os namorados de duas concorrentes envolveram-se ao murro, os familiares trocaram umas quantas acusações em directo, as moças fugiram a chorar para a casa de banho, muito envergonhadas, e nós achámos por bem cancelar a eliminatória, embora capitalizando a pancadaria em horário nobre - com sucessivos flashes ao longo da semana, como insistiu o espanhol. Eu e a Catarina vivemos juntos há ano e meio, em Lisboa, e apesar de ainda não termos casado estou convicto de que a minha fama de homossexual entre a equipa da produtora se vai dissipando devagar. Ela está a começar a faculdade, um curso qualquer na área da alimentação e do nutricionismo, e eu dedico estes dias a um programa de talentos teatrais que não sei se chegará a sair do papel. Não temos uma vida fácil: andamos sempre desencontrados, eu estou reticente quanto a descendências e nem sempre as coisas correm pelo melhor. Mas aos fins-de-semana vamos para a nossa casa de Lamego, sentamo-nos nas nossas cadeiras de balanço e, enquanto eu acendo um charuto e penso: "Falta menos um dia para morrer", não consigo evitar um lamento de que me reste, de facto, menos um dia de vida.

Joel Neto
Lisboa
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