Ao fundo uma oliveira, cap. II |
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José e Edite partem de Lisboa à deriva, rumo a Norte, enquanto a rádio debita as últimas informações sobre a queda de uma ponte.
Vão fazer a rodagem ao novo automóvel, com que ele sonhara durante
décadas. São casados há 38 anos e não têm entre eles mais nada senão as
certezas de quem vive com outra pessoa há 38 anos consecutivos.
***
Atenta, Edite ia dialogando com o pivot da emissão, sublinhando com comentários inquietos aquilo que mais a impressionava e clamando celeridade nas pausas para respirar. José, menos dado a sínteses, sentia cada vez mais dificuldades em assimilar toda aquela informação. Dois dias antes, 5 de Março, quando o Telejornal anunciara a tragédia, recorrendo aos serviços de um jornalista local para adiantar-se à concorrência, tudo lhe parecera mais simples: uma ponte caíra, sobre ela estavam um autocarro e dois automóveis e tudo redundara numa catástrofe igual a tantas outras - sessenta e seis mortos, duas dúzias de órfãos e um volume indeterminado de prejuízos materiais. Era o essencial, e não fora difícil de memorizar. Primeiro porque naquele dia comera sardinha em lata, e sempre que comia sardinha em lata devia preparar-se para algum tipo de desgraça - fora assim no dia da morte de seu pai, fora assim numa certa madrugada em que os comunistas haviam tomado o poder e viria ainda a ser assim naquele dia negro em que o patrão vendera a fábrica de chocolates a um consórcio espanhol, que o mandara reformar de imediato, por excesso de experiência. Depois, porque para cada um dos números envolvidos naquele desastre era possível encontrar uma analogia na sua própria vida: 5 de Março fora o dia do seu juramento de bandeira, sessenta e seis era o número de anos que já vivera, órfãos é o que mais há no mundo - e normalmente vêm às dúzias - e, quando a prejuízos materiais, pois não faltava quem fosse todos os dias à televisão queixar-se: queixar-se do sol e queixar-se da chuva, queixar-se do vento e da falta dele, de forma a pospor quanto possível a sua desgraça e encontrar por instantes com quem partilhar a sua própria inépcia (e, já agora, embolsar um subsídio). Entretanto, porém, tudo se complicara. Ninguém tinha certezas absolutas sobre o número de viaturas e pessoas sinistradas, a troca de acusações políticas começara rapidamente a desenhar-se, o ministro com a pasta das Obras Públicas caíra logo na primeira madrugada, as buscas matinais tinham esbarrado com o curso assanhado do rio, autarcas de vários pontos do país começaram a denunciar um rol infindável de outras pontes em perigo, os familiares das vítimas haviam-se visto a explicar repetidamente para as câmaras "como se sentiam", como se pudessem sentir-se de outra forma senão mal - durante vinte e quatro horas, a informação fora avançando e recuando ao ritmo da ansiedade e da ambição, de uma ou de outra ou das duas ao mesmo tempo, e a certa altura José acabara por perder o Norte às coisas. À noite, numa conferência de Imprensa marcada para o horário dos telejornais, o primeiro-ministro ainda tentara fazer um balanço dos acontecimentos, apelando ao enxugar das lágrimas e ao arregaçar das mangas, mas a Oposição cerrara fileiras através de comentadores colocados estrategicamente nos vários estúdios de emissão. Se ele pensava que se livrava assim tão facilmente de responsabilidades, estava muito enganado - havia muitas contas a ajustar, muitos anos de contas a ajustar, e se para as saldar tivesse sido precisa uma tragédia, então que para alguma coisa houvesse servido a morte de sessenta e seis infelizes sobre um rio endemoninhado. Fora nessa altura, ao desligar o televisor com uma unhada seca, que José protestara pela primeira vez: "Filhos da puta!" Mas um dia depois, marchando devagar por uma estrada secundária em direcção a Norte, tudo se lhe mesclava ainda na mente, como se fazendo parte de um plano superior para a erradicação de alguma coisa, alguma coisa muito maior do que ele - e essa coisa só podia ser o próprio homem, o homem e a sua ideia de que para sempre sobreviveria aos seus próprios actos, se uma câmara se lhe apontasse ao focinho e um microfone registasse as suas últimas palavras. Sim, concluía José, os homens seriam destruídos e os repórteres lá estariam para registá-lo, porque só os repórteres sobreviveriam um dia à destruição dos homens. - O maior erro da minha vida foi não ter ido para repórter - sussurrou José, e quando o fez soltou uma gargalhada, um misto de riso e de vingança que tomou de assalto o volante, chocalhou o automóvel sobre a estrada e lançou Edite contra o vidro contrário. - Devagar, José! - reagiu ela, e depois baixou o tom. - Quando te pões com essa coisa do maior erro da tua vida, há sempre desgraça… O marido olhou-a de soslaio e voltou a cabeça para frente, cerrando as frontes à estrada. Edite ergueu-lhe os olhos e segurou-os firmes no ar, como um desafio. Estiveram ali uns minutos, ela segurando ainda o rosto no ar, ele semicerrando as pálpebras como quem contém um suspiro. Então ela aumentou para o máximo o volume da telefonia: faziam-se os primeiros balanços informativos A ponte caída tinha cinquenta metros de altura, quase todas as autarquias do país haviam enviado telegramas de condolências, Manuel Sousa-testemunha havia feito recuar o jipe assim que vira a ponte ceder, as buscas seriam retomadas no dia seguinte, o director de um jornal espanhol dizia que Portugal estava "deprimido", a Suécia queria enviar uma equipa para ajudar nas operações de rescaldo, o Parlamento aprovara um voto de pesar, um popular insultara o primeiro-ministro cara-a-cara: palavras e palavras sobrepunham-se no habitáculo do Volkswagen, Edite firme com os olhos no ar, José de frontes fechadas na direcção do pára-brisas, o carro voando como um louco, o mundo desintegrando-se aos lados, os anjos cantando a sete vozes - até que um baque ecoou sob o chassis do automóvel, o condutor agarrou com angústia o volante, Edite voltou a cara para a frente, o motor calou-se de repente e uma luz intensa brilhou ao fundo, alongando-se sobre a estrada e cegando por momentos os dois ocupantes. - Ai, José... - disse ela, ao fim de um longo silêncio. - Dá sempre desgraça, isso do maior erro da tua vida - repetiu, e depois olhou ao fundo para uma oliveira solitária, que velava pela segurança da viagem. www.joelneto.com "Naquele dia comera sardinha em lata, e sempre que comia sardinha devia preparar-se para algum tipo de desgraça - fora assim no dia da morte de seu pai" "Sim, concluía José, os homens seriam destruídos e os repórteres lá estariam para registá-lo, porque só os repórteres sobreviverão um dia aos homens" Joel Neto Lisboa Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o JavaScript terá de estar activado para que possa visualizar o endereço de e-mail |
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