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"XABREGAS"

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Acordei em sobressalto uma manhã
Depois de noite agitada e mal dormida
Dei um beijo de despedida a minha mãe
Segui para o trabalho logo de seguida

O torno gira em alta velocidade
Cortando o metal com precisão
E era no ardor da minha mocidade
Que eu vivia uma solitude sem razão

Deixei as máquinas ao toque da sereia
Sigo para a escola noturna para estudar
Física e Química durante mais de hora e meia
Desenho de Máquinas depois até a noite findar

Terminei as aulas nessa noite as onze horas
Ah! triste fado que a sorte me negas
Deveria voltar para casa sem demoras
A pé sigo meditando pelo cais de Xabregas

Não posso aguentar mais este triste fado
Na minha inocência não encontro solução
Sento-me ali numa pedra já estafado
Enchendo-se de grande amargura meu coração
Uma fragata indiferente lá seguia rio acima
Ao leme a silhueta do arrais fumando uma beata
A lua cheia no céu iluminava brilhantíssima
E as aguas do Tejo pareciam um mar de prata

Para o lado os livros estão caidos
Soluçando sinto na garganta um aperto
Saltam-me as lágrimas dos olhos doloridos
Chorei sozinho mas com o rosto encoberto

- Oh! Tejo que recebes minhas máguas -
Numa canoa um pescador canta seu fado
Enquanto vai pescando ao candeio nestas águas
- São as lágrimas que fazem o Tejo mais salgado -

É feio um homem chorar diz um ditado
Foi por isso que limpei o rosto e levantei-me
Segui a pressa para casa ja muito atrazado
Mal jantei e um jovem derrotado deitei-me

Vieste tarde meu filho mas que noitada?
Meu pai perguntou quando cheguei
Devagar eu vim a pé pela calçada
E atrazei-me respondi e mais calmo fiquei

Nessa triste noite terminou a adolescência
Mais homem me considerei desde então
Já lá vão quarenta anos e em consciência
Ainda choro ao luar mas por outra razão

Agora sou um pai que está a perguntar
Qual o atrazo dos filhos a crescer
Porque sei o que custa a vala saltar
Para do outro lado se ser
HOMEM A VALER

 
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