Humanidade em técnica impecável |
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Joel Neto transforma-se numa das melhores vozes de nosso idioma comum, e é escritor que já possui sua marca perene e perceptível, expressão de um processo em que o domínio da técnica constrói sonoros universos de humanidade
Todo escritor possui sua marca, que se pega à obra e se institui na
pedra de toque de sua produção actual e - eis o problema - também
de sua produção futura. Quando se trata de autor jovem, isso é particularmente
discutível, pois haverá um porvir a confirmar ou a desdizer qualquer
diagnóstico. Por isso, ninguém deverá avaliar o autor jovem por suas primeiras
obras. Surge, entretanto, um ou outro caso em que o juízo sobre uma obra em
seus inícios deverá, e com honra, permanecer por toda a vida. Refiro-me, aqui,
ao escritor Joel Neto, e seu O Citroën
que Escrevia Novelas Mexicanas, publicado pela Presença em 2002.
Em dada altura do conto “Para Citar um Poema Fácil”, está
escrito: ...e quando ele me pôs a mão no
ombro eu não senti o anúncio da morte, mas o afago que procurara seis anos
antes, naquele que viria a revelar-se um dos momentos mais tristes da penosa
história da minha adolescência. Mesmo que o leitor ainda não conheça o
texto, alcança perceber, aqui, a revelação de um intento humanístico e
estético.
E quando ele
me pôs a mão no ombro... - Esse gesto dissemina-se pelos contos de Joel Neto, tanto
em sua forma visível como em suas representações conotativas: perpassa, por
todas as 94 páginas, um sentimento superior e definitivo de solidariedade, essa
necessária emoção que nos deveria unir a todos, vítimas da trágica vaga
neoliberal. Isso acontece quando o narrador de O Sobrevivente da Viola
Desafinada diz que trocava duzentos escudos por moedas, as quais iam para
músicos de rua; isso também está no magnífico Ao fim do Quebra-Mar Havia um
Peixe, em que o narrador sabe que revelou um som incomparável e extremo a
seu amigo músico; verifica-se da mesma forma na inconsciente ternura
demonstrada por um obscuro radialista de província, apresentador de
melancólicos programas nocturnos. É a metafórica mão no ombro, omnipresença em
Joel Neto.
O afago que
procurara seis anos antes... - Outro leitmotiv
é a carência - e a
busca do preenchimento de uma falta. As personagens de Joel Neto nunca estão
acomodadas, parecem ao encalço de algo que as complete: o protagonista de A
Cor Mais Forte do Arco-Íris, em sua ilha açoriana, repete a algumas
visitantes os lugares-comuns turísticos e descobre-se, ao final, vazio e
abatido pela possível verdade dos clichés de “lonjura” e “angústia” que ele
próprio proclamava.
Um dos
momentos mais tristes... - Joel
Neto, contista soberbo, sabe que o conto é uma peça com um único núcleo
dramático e, se pensamos como Poe, capaz de causar no leitor um efeito. Nesse
sentido, nosso autor adopta uma conduta estética que privilegia o momento, dele
extraindo toda sua força catalisadora. Há sempre um pequeno núcleo dramático
(nem sempre triste, diga-se), do qual deriva a linha narrativa: isto é bem
claro no conto-título do livro, cuja frase inicial - Tornei-me um escritor no dia em que comprei
o meu primeiro carro -
deflagra todo um pensamento sobre a criação literária, um dos mais queridos
fantasmas dos escritores. Mas não é apenas uma frase de efeito: é, antes de
mais nada, o saber começar e, nos começos, enunciar o eixo temático do conto.
A competência criadora de Joel Neto, sob o aspecto textual,
pode ser vista - e pode
ser ouvida. Pode ser vista na medida
certa do parágrafo, que sabe alongar-se quando se trata de uma acção compacta,
ou então fazer-se curto quando a acção, pela brevidade, deve ser contundente: o
acto de pôr a mão no ombro desencadeia uma reflexão rápida mas transcendental,
e é essa brevidade que gera o fascinante resultado.
A invenção do melhor texto pode também ser ouvida, no ritmo aliciante das frases e
nos arranjos vocabulares. Lembremo-nos de Santo Agostinho que, nas Confissões, fala de seu mestre Santo
Ambrósio como aquele lia “enquanto a voz e a língua descansavam” - mas que ouvia com seu coração. A distância prudente entre as
proparoxítonas relativas anúncio e adolescência que, no fragmento
escolhido, agem como duas colunas linguísticas a ladear polissílabos
foneticamente bem distribuídos, encaminham para uma modulação rítmica que
persiste nas belas impressões auditivas do leitor.
Nada do que disse acima será suficiente para expressar o
intenso impacto deste livro. Não se pense, contudo, que estamos ante um artista
cerebral, que utiliza o texto como manifestação de um artesanato intransitivo
ou de mera exibição. Ao contrário, Joel Neto sabe que a
tékhné é, como em Stanislavki, a verdadeira
libertação do talento. E é com esse mesmo talento que ele se permite à
auto-ironia e ao humor, como no delicioso conto que encerra a colectânea.
Por tudo isso, Joel Neto transforma-se
numa das melhores vozes de nosso idioma comum, e é escritor que já possui sua
marca perene e perceptível, expressão de um processo em que o domínio da
técnica constrói sonoros universos de humanidade.
Luiz Antônio de Assis Brasil
* Romancista e ensaísta. Doutor em Teoria da Literatura. Professor
Titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre,
Brasil. Acrescentar como Favorito (641) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 4683
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