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O perdedor venceu

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Levantara-se cedo, como de costume. Enquanto tomava banho, pensava em como seria difícil seu dia, naquela maçante rotina que vivia. Seu café da manhã, farto de vazio, tinha apenas uma torrada - na verdade, pão do dia anterior - com manteiga rançosa.
   O aluguel estava atrasado. Atrasado também estava a menstruação de sua ex-namorada. Estava acostumado a perder. Pensava no que faria durante o dia, enquanto recebia a seleção de seu conhecimento diário, através destes jornais distribuídos em esquinas movimentadas.
   Pegara o ônibus. às sete e meia tinha de estar quinze quilômetros dali. Já eram seis e quarenta e cinco, início de trânsito, de conjuntos de ferro, ostentadores do status social na locomotiva de nosso país. Cheio e atrasado, o ônibus.
   Sua roupa amassara-se mais, parecendo que fora socada e esquecida num antigo depósito de lixo e, quando encontrada, vestida por ele. Não conseguiu chegar até a catraca do ônibus. Desceu fora do ponto, como de costume. Sua pernas apenas vagueavam, automaticamente, até a estação de metrô. Faltava somente catorze estações, antes da primeira baldeação.
   O centro da cidade se aproximava a cada anúncio de estação emitido na caixa de som, da minhoca sobre trilhos. Seu destino também. O tempo lhe passava através da visão pelas janelas daquele trem subterrâneo. Sentia que era hora de partir.
   Chegara ao centro, atrasado. Quase oito, não o deixaram entrar. Perdera mais uma vez. Percebia que era hora de mudar, tentar sair vencedor de algo. Imaginou como seria o restante de seu dia e, quantas vezes teria de sentir o gosto da derrota em seus lábios rachados.
   Decidira mudar. O pára-peito do viaduto estava a pouco mais de meio metro de seu corpo. Suas pernas se moviam pela sua vontade, pelo seu consentimento. Apesar da rua lotada, poucos notaram e, ele não teve vergonha, tampouco medo. Pulou ali mesmo, corpo em diálogo com o vento, negociando sua queda.
   Enquanto caía, pensava se seria selecionado para o próximo conhecimento diário, nas mãos de um outro qualquer.
   Caiu de uma altura de quinze metros. Morreu. Virou nota de rodapé curta no jornal, entregue nas mãos de tantos outros iguais à ele. Morrera imaginando ser um vencedor.

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