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Educação uma abordagem complexa

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Educação – uma abordagem complexa1

 

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Miguel Soares de Albergaria

 

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Agora que a recente efervescência na política educativa abrandou, será altura de se reflectir com maior tranquilidade e radicalidade sobre esse domínio tão decisivo quanto mal encaminhado. Pretendo aqui apenas lembrar algumas inter-relações que a Escola estabelece, e a consequência política desse facto.

Num modelo liberal, a escola reforça e é reforçada por uma forte concorrência nos mercados de produtos, financeiro e de trabalho, e pela menorização do Estado-Providência. Visa desenvolver competências (faculdades) pessoais e conhecimentos gerais ou básicos, como a autonomia, criatividade, capacidade de resolução de problemas, capacidade de aprender coisas novas,… Mais do que competências específicas como por exemplo operar com a totalidade do Office 2007. É ainda o caso da compreensão, e da disponibilidade para usar as bases linguísticas e matemáticas, bem como do domínio das traves mestras de uma cultura geral que permita interpretar o mundo que experimentamos quotidianamente. A Escola coloca-se pois em função de um futuro percurso profissional com tarefas diversas, emprego e desemprego, novas formações, etc., para depois, em cada um destes eventuais e imprevisíveis momentos, se aprender então o que lhe for específico. Com essa orientação curricular, a gestão da escola liberal é bastante heterogénea. O estatuto do aluno prevê que a diferenciação entre estes ocorra espontaneamente, não sendo imposta pelo sistema educativo. Cujo financiamento é misto (público e privado). Quanto à formação profissional, será mais contínua (ao longo da vida) que inicial, registando uma forte iniciativa das organizações empregadoras.

Em troca, um modelo europeu-continental prevê a concertação económica entre o Estado, os empresários e os assalariados. Supondo os objectivos assim estabelecidos, bem como a estabilidade acordada para o emprego, os curricula escolares orientam-se para os conhecimentos e competências específicas das tarefas previstas, acentuando, entre as competências pessoais, a responsabilidade, a disciplina hierárquica... Tanto esses curricula quanto as formas de certificação (exames…), etc., são estandardizados. A diferenciação entre estudantes, nomeadamente os destinados aos cursos superiores e os destinados ao ensino profissional, é imposta desde o básico. De modo que a formação profissional inicial se torna pelo menos tão importante quanto a contínua. O financiamento da educação é eminentemente público.

Sob a pressão dos desafios da globalização e da economia do conhecimento, de um lado, e dos anseios da população, do outro, o modelo social-democrata tem tentado conciliar a flexibilidade liberal com a segurança continental. Sobre isto apontarei apenas que, se porventura reúne o melhor dos dois mundos, então também reúne as respectivas condições de sucesso. Ora, quanto mais forem estas últimas, menor é a probabilidade de todas serem satisfeitas, logo menor é a probabilidade de sucesso… É uma ponderação entre tudo ou nada.

A questão chave a ter em conta é que os dispositivos dos domínios educativo, financeiro, laboral,… desses modelos apenas funcionam porque se reforçam uns aos outros. Concretamente, relacionam-se na base do que se chamará uma "visão do mundo" – por exemplo, o modelo liberal decorre duma ética que valoriza a liberdade individual e o trabalho, o modelo europeu continental valorizará primeiro a segurança e a colectividade,... Somos assim remetidos para os níveis da cidadania, e do desenvolvimento da personalidade, que subjazem ao da inovação e produção no qual me situei, perpassando toda a vivência escolar.

Por consequência, nesta perspectiva complexa urge que nós portugueses, primeiro, ao menos esbocemos uma visão do mundo – de horizonte de um misto de império e miscigenação com laivos messiânicos… desde 1974/75 passámos a habitar o quê? Em conformidade deveremos então determinar o modelo que melhor nos permitirá alcançar os nossos objectivos – estabelecidos no passo anterior – no contexto da III Revolução Industrial e da globalização. Determinado esse modelo, caberá enfim implementá-lo em cada um dos domínios – optando, na educação escolar, entre a iniciativa ou a responsabilidade,… as competências pessoais e conhecimentos básicos ou os específicos,… a gestão local ou a centralizada,… os curricula heterogéneos ou os estandardizados,… a espontânea ou a imposta diferenciação dos estudantes,… ou seja, os dispositivos escolares que reforcem e sejam reforçados pelos que, na base da mesma visão do mundo, entretanto serão implementados em cada um dos outros domínios.

1 - In: O Primeiro de Janeiro, Porto, 18/05/2008


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