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João de Melo - conversas

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ENCONTRO COM O JOÃO DE MELO

Dezembro de 1971. Norte de Angola. Calambata.
O aquartelamento encarrapitado no cimo do morro. A meia encosta, a sanzala.
Ao redor, a omnipresença dos morros verdes de capim. Nas vertentes, as manchas escuras e densas da mata.
Finalmente, após longa espera, os «maçaricos» chegaram. À porta de armas, uma enorme bandeirola de pano branco, letras garrafais pintadas em vermelho vivo, fazia as honras da recepção:
«A RAZÃO DA VOSSA TRISTEZA É A RAZÃO DA NOSSA ALEGRIA.»
Os «velhinhos», em polvorosa, rodearam a coluna. Troçam, hílares, do ar aparvalhado dos recém-chegados. - Estes «maçaricos» ainda cheiram a sal.
- Estávamos com medo que se tivessem perdido na picada.
- Aqui não podem chamar pela mamã.
Mas logo a saudade desponta. Abruptamente, a fachada rude esboroa-se.
- Vem alguém de Viana ?
- De Chaves ?
- De Leiria ?
Reencontros. Abraços. Corações a estoirar na boca. Na messe dos sargentos preparamo-nos para receber principescamente os recém-chegados. Eu e o Machado, um rapaz do Lobito perdido por folias, demos folga aos faxinas e começámos nós próprios a servir o jantar. Com os nossos camuflados mais esfarrapados, cigarro ao canto da boca, inspirados pelas avantajadas cervejas já emborcadas no decorrer do dia, massacramos os «maçaricos» sem piedade. Entornamos-lhes o molho do guisado sobre as camisas novinhas em folha, damos-lhes encontrões e vigorosas palmadas nas costas que os fazem engasgar de surpresa, tratamo-los com uma familiaridade que os deixa aturdidos.
- Aqui no mato não há postos, somos todos iguais.
- Se não estão satisfeitos, levantem o rabinho da cadeira e vão lá dentro à cozinha buscar a comidinha.
- O tempo dos escravos já acabou.
- É comer e calar.
Os «velhinhos» ajudavam à «festa» :
- Os nossos faxinas estão completamente cacimbados.
- Não digam nada senão ainda são capazes de ir buscar a G-3 e começar para aí aos tiros.
Por fim, um dos furrieis maçaricos, incapaz de suportar por mais tempo a tortura atirou o guardanapo sobre a mesa e ergueu-se, lívido, a arfar de indignação. Era um rapaz franzino, de cabelos lisos e aloirados. Chamava-se João de Melo e começava nessa noite a incubar a sua «Memória de ver matar e morrer».
Era tempo de acabar com a pantomina antes que a situação degenerasse.
Feitos os devidos esclarecimentos, desatámos todos a rir às gargalhadas e a festa prolongou-se pela noite fora até ao romper do dia. Depois, nos quinze dias que durou a sobreposição, eu e o João de Melo ficámos amigos.
Unia-nos o amor às letras e a cumplicidade das nossas preocupações socias e políticas. O João de Melo deu-me a ler os seus manuscritos e eu mostrei-lhe os insípidos textos que já então me aventurava a escrevinhar. Ainda me recordo da grande admiração que ele nutria então pelo Urbano Tavares Rodrigues. Pelo escritor e pelo homem vertical.
Passados alguns anos, quando o nome do João de Melo começou a andar nas bocas do mundo e os seus livros inundaram os escaparates das livrarias, eu gostava de dizer : conheci este tipo na tropa. E acometia-me o desejo de escrever a história do nosso encontro insólito.


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